Eu e o meu péssimo hábito de me envolver demais com livros.
Eu não sei bem o que as pessoas querem dizer com “sofrimento adora companhia”. Significa que ele atrai outros amigos, como tristeza, angústia? Ou será que significa que aquele que sofre vai, eminentemente, arrastar mais alguém para o poço do sofrimento com ele? Eu não sou do tipo que gosta que os outros sofram, comigo ou sem migo. Vez ou outra, quando alguém maltrata muito meu coração (cof-emo-cof), eu desejo apenas que a pessoa sentisse, nem que fosse por um curto período, o que ela me fez sentir. Mas eu definitivamente sou do tipo que, quando sofre por uma causa, acaba atraindo todos os outros sentimentos ruins e os pensamentos mais depressivos possíveis.
De certa forma, eu gosto de sofrer. Bom, é a conclusão mais óbvia a se chegar, analisando bem o meu caráter e as minhas atitudes. Aquele alarmezinho que dispara na cabeça da gente quando vemos um "pivete" se aproximar numa rua deserta, ou quando percebemos que aquele amigo feio e chato (mas, amigo) está totalmente apaixonado pela gente, dispara de vez em quando em minha cabeça, mas por motivos diferentes. “Ele não gosta de você, não acredite nas suas amigas, elas falam isso porque querem que você se sinta bem – não se iluda”, “Esse livro vai te deixar mal, você sabe que vai se reconhecer aí de algum jeito e se envolver mais do que você já se envolveu com qualquer coisa na sua vida real – não leia” e disparos desse tipo. Haha, por mais gritantes que sejam os alarmes, eu nunca dou atenção à eles. Até o tempo colabora para essa situações, sem saber, claro, que eu funciono invertida quando o assunto é tempo. O céu desaba, às 10h da manhã você acha que são 5h da tarde, o vento bagunça toda a sua varanda e chicoteia a sua janela, como quem avisa a chegada do furacão. O que eu posso fazer, se eu amo tudo isso? Se os alagamentos na cidade, que me deixam presas no ônibus em engarrafamentos por horas a fio, me deixam risonha como criança e se a palidez do dia e o vento açoitante fossem como o melhor filme de Tim Burton… Apenas nessas ocasiões eu sou uma pessoa de hábitos diurnos. E então eu sou tentada, praticamente obrigada, a me entregar à melancolia, ler um livro dramático demais, ver um filme meloso demais.
Drama, é tudo por causa do drama. Eu amo um drama, e agora? Como lidar com isso? Eu amo quando eu consigo me entender, porque isso é bem difícil. Todo mundo sempre procura freneticamente por explicações lógicos, expiações, desculpas na verdade, para justificar o seu comportamente. Pecisamos nos convencer de que estamos corretos, ou não conseguiremos viver com o peso de nossas decisões. Mas eu sou do tipo que não aceita qualquer explicação, por mais que na maioria das vezes, devido à minha apatia, possa parecer isso. No meu íntimo, eu questiono até Deus, e Ele sabe disso (e eu seu o quão magoado ele deve ficar, e eu me arrependo, mas as dúvidas tem vida própria, são autônomas, surgem sem eu ter absolutamente nenhum controle sobre o fato). É muito, muito difícil eu acreditar numa teoria que eu crio para justificar meus comportamentos, e agora eu achei uma que explica tanta coisa sobre mim. Eu já vinha analisando ela há um tempo. Eu não a criei, na verdade. JD (Zach Braff, em Scrubs) a criou, naquele episódio que ele tem uma namorada que não é a Elliot, e eles vivem brigando, até que ele percebe que as melhores noites de sexo são quando eles fazem as pazes, e com a frequência que a mulher criava confusão e chorava rios, ele só podia concluir que ela (assim como Elliot, Carla e tantas outras) amava o drama. Que graça tem uma vida sem drama? Tudo perfeito, em ordem. Tudo fica igual. Vida sem drama é uma inerte. Não quero ser a disseminadora do caos, mas eu nem preciso: somos tão necessitados de dramas que nós não conseguimos parar de criá-los ou de criar condições propícias para que ela apareça. O problema é que não há drama na minha vida. Não há muita coisa na minha, na verdade. Eu não digo que não há nada, porque sei que ofenderia alguns amigos e minha família. Mas também que não preciso ser hipócrita aqui. Nunca fui, e eu sou muito clara quanto a minha posição sobre hopocrisia: eu tenho nojo! Sendo a minha vida uma festa sem dj e sem convidados, um buraco negro que não vai dar em lugar nenhum, uma música de uma nota só que toca baixinho e ninguém ouve, eu vou buscar o meu drama nas histórias dos outros. Uma coisa é você viver através de seus amigos. Você não vive, você apenas tem um relance do que seria se fosse com você. Você se envolve, claro, e sente emoções (a não ser que o seu estado de indiferença já esteja tão avançado como o meu, aí você não sente nadica de nada). Outra coisa é você viver através de um livro. Você é a personagem. As personagens, na verdade. É você, finalmente, o centro de tudo. Narcisista, eu sei, mas é a mais pura verdade. Todo mundo quer ser o centro de algo alguma vez na vida. Ser o centro do universo de alguém.
Muito bem, e por que eu estou mais chata do que o comum, mais tagarela, mais maníaco-suicida? Porque, mais uma vez, eu li um livro deprimente. Acabei de terminar O Pacto, de Jodi Picoult. Aconteceu o mesmo que aconteceu há cerca sete meses atrás, com Crepúsculo. Alguém me falou do livro. Quando vi quem era a autora e que tipo de livro era, fiquei cheia de preconceitos. Mas algo me mandava ler o livro (espero que não tenha sido o capeta, mas acho que foi ele mesmo), uma coisa dentro de mim me fazia sentir impedida de ler outra coisa antes de ler aquel livro. Eu estava triste, mas apática, exatamente como há sete meses atrás. Estava me sentindo só, abandonada, trocada (não só por a pessoa a quem já me referi várias vezes, possessa de raiva, eu me sentia abandonada por todos. De repente, todo mundo tinha algo mais interessante pra fazer do que estar comigo, ou algo mais interessante a fazer do que me ouvir), exatamente como há sete meses atrás. E, a coisa mais estranha e ao mesmo tempo mais normal de todas, estava chovendo como no dilúvio, o céu no meu tom de cinza preferido, sem partes azuis à vista. E, assim como há sete meses atrás, num impulso, indo contra todos os avisos que o alarme em mim dava, eu gastei um dinheiro que nem deveria gastar e comprei o livro. Isso foi… hm, ontem. Meu Deus, haha, eu nem percebi que tinha lido tão rápido. 395 páginas em, bom, umas 24h, já que comprei ontem na hora do almoço, e dormi à tarde e parei para conversar com Soop e ver o show do Oasis (muito bom, por sinal), e terminei de ler às 17h de hoje.
O livro não teve o final, mas eu estou falando do finalzinho mesmo, últimas duas páginas e tal, perfeito, o final que deveria (em minha opinião, claro) ter, mas não deixa de ser bom por isso. Devo ter chorado umas três ou quatro vezes enquanto o lia, e eu era Emily, e depois eu era Chris, e depois eu estava olhando para o nada e perguntando a mim mesma “Que merda você está fazendo lendo esse livro? Além de te dar idéias, ele está lhe mostrando umas verdades sobre você…” E, assim como aconteceu com Crepúsculo (sempre que me refiro à Crepúsculo, falo da saga, dos quatro livros), eu comecei a relacionar tudo ao meu redor à história. Não é intencional. Parece mais uma baita de uma coincidência. A primeira vez que percebi foi hoje pela manhã, quandoouvia “stand by me”, do Oasis.
“Stand by me, nobody knows the way it’s gonna be” ("Fique ao meu lado, ninguém sabe como as coisas serão")… como assim? Não era isso o que Chris queria dizer à Emily? E não era exatamente nisso que ela deveria ter acreditado, e entendido? Mudei de música.
“So don’t go away, say what you say, but say that you’ll stay, forever and a day in the time of my life, ’cause I need more time, yes, I need more time just to make things right” ("Então não vá embora, diga o que quiser, mas diga que vai ficar, para sempre e mais um dia no tempo de minha vida, porque eu preciso de mais tempo, sim, eu preciso de mais tempo para acertar as coisas"). E na minha cabeça, Chris chora ao dizer isso. Diga que você vai ficar? Porque eu preciso de mais tempo para concertar as coisas? Eu não tenho como fazer mais comentários acerca disso, mas quem leu o livro entende na hora. E aí vem “stop crying your heart out”, que é também tudo o que Chris queria que Emily ouvisse entendesse. Por último, eu estava distraidamente cantando “don’t look back in anger” sem cessar, até que percebi a ironia (só percebi há pouco tempo, porque já estava no finalzinho do livro). Não olhe para trás com raiva, eu a ouço dizer. Como assim? Uma pena que ninguém que eu conheça tenha lido esse livro ainda para eu poder falar melhor disso. Ainda fui ouvir Travis, e começou “Why does it always rain on me? Is it because I lied when I was seventeen?” ("Por que sempre chove em mim? É por que eu menti quando tinha dezessete anos?") Haha, eu ri.
Mas não é só isso. Não é só se envolver com a história e sentir o turbilhão de sentimentos que atormentavam cada uma das personagens. Teve mais, e essa foi a pior parte, a parte que me faz chorar (lágrimas nos olhos agora…). Talvez haja um SPOILER aqui, não tenho muita certeza, já que a sinopse conta do suicídio, mas leia por sua conta em risco. Emily não queria mais viver. Certo, ela tinha uns traumas, e ela tinha Chris, e mesmo a situação sendo como sendo, nossas vidas não podiam ser mais diferentes, exceto em um ponto: a maldita sensação de não se encaixar, de não querer mais ficar aqui, de simplesmente não conseguir se importar com mais nada relacionado à essa vida medíocre. Eu não sei o que Emily queria depois da morte. Eu quero o Céu e Jesus Cristo (ou assim eu gosto de pensar), mas queremos/queríamos morrer pelo mesmo motivo.
“- Sou muito covarde para me matar e muito covarde para viver. Para onde vou? – perguntouIsadoraEmily.”
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