quinta-feira, 10 de junho de 2010

Marília de Dirceu

Tratava-se de uma simples bolsa azul-marinho, mas era o suficiente para marcar o começo daquela nova vida. Marília estava disposta a colocar o passado em seu devido lugar: lá atrás, onde nenhum barco saudosista poderia alcançar. Já era horrível ter que suportar as pessoas perguntando, todas as vezes que a encontravam, como ela estava. A moça decidira, então, não mais tolerar aquela dor. Ela iria embora, senão por bem, por mal.

Desde que o seu grande amor partira, Marília vivia de pena alheia. Dona Nonô lhe trazia broa da padaria toda noite, com a desculpa de que “sobrara”. Claro, era apenas uma maneira que a velha senhora encontrou para dar um conforto ao coração da menina. Da mesma forma fazia o resto do bairro, sempre presenteando a moça com especiarias, flores, roupas alegres – desde o fatídico dia, Marília não usara nada que não fosse lúgubre o suficiente para deixar o vigário da paróquia escandalizado – e cestas de doces. Cansada dessa comiseração e de toda a lembrança que isto lhe trazia, resolveu que o melhor seria ir embora. Começar uma nova vida, longe dali, longe do seu grande e único amor.

O complicado era fugir. Todos na cidade acompanhavam sua vida, como se esta fosse um folhetim, e o pai, deveras preocupado com a vida emocional da filha, não a perdia de vista. Por isso a bolsa azul foi necessária. A idéia surgiu enquanto visitava uma lojinha da cidade. “Uma bolsa azul, bem jovial, ótima para o verão que está por vir, querida”, comentou a dona da loja. Uma bolsa azul era exatamente o que Marília precisava. Não criaria suspeitas, afinal bolsas como a que ela escolhera são comumente usadas para passeios, dia-a-dia, etc. Além disso, ninguém poderia imaginar que uma pessoa, em sã consciência, fugiria apenas com uma bolsa. Felizmente – ou infelizmente, depende do ponto de vista – esse não era o caso de Marília. Sua sã consciência, ou sua consciência inteira, tinha partido junto com seu amor.

E foi numa triste tarde de segunda-feira que Marília colocou dois vestidos, algumas peças de roupa íntima, algum dinheiro que guardara para o casamento – que agora nunca aconteceria – e toda a comida que havia recebido naquela manhã dos seus “médicos da comiseração” na sua bolsa azul e partiu. Disse à nega Vivi que ia visitar a amiga Catarina, que morava longe da cidade, e que só voltaria ao anoitecer. Em vez de usar a carruagem, pegou um dos cavalos do pai e rumou para o leste.

Não partiu sem um destino previamente decidido, pois sabia dos riscos de ser uma jovem mulher sozinha na estrada. Rumava para o litoral, onde esperava encontrar o Dr. Sirilo, homem de negócios que havia passado alguns meses na cidade de Marília. Marcel Sirilo, um cirurgião renomado, conheceu a Marília alegre, a Marília estrela, a Marília bela, assim que chegou na cidade. Estava lá para visitar um grande amigo, o tio da moça, mas partiria para a África no mês seguinte. O Dr. Sirilo também teve a infelicidade de conhecer a Marília tristonha, a Marília taciturna, a Marília apática, e vendo no que a menina estava se tornando, a convidou para partir com ele para o outro continente.

- Veja você, Srta. Marília. Meus filhos não podem passar tantos meses sem estudo, e eu sei que a senhorita é muito inteligente, daria uma ótima professora. Não quer viajar conosco e ser tutora de meus meninos? Lá em África você mora conosco, comigo e Daniela e os meninos, até a minha próxima viagem à América. Que me diz?

A princípio, Marília não gostara da proposta. O choque de ter pedido sua cara-metade havia deixado a moça insensível a todo o resto do mundo; sua indiferença a impedia de sair de casa, que dirá do continente. Contudo, agora que decidira fugir, não via opção melhor. Calculou que, pela data de viagem mencionada em conversas com o tio, Dr. Sirilo ainda passaria dois dias no litoral, antes de embarcar, o que seria tempo suficiente para chegar à cidade, indo a cavalo. Então estava tudo planejado: seria professora das crianças Sirilo e moraria na África, onde ninguém saberia sua triste história. Talvez ela até mudasse de nome, cortasse o cabelo, tudo para evitar qualquer lembrança do passado.


A semana seguinte voou. Marília, com todo o seu charme e sua aptidão teatral, convenceu o Dr. Sirilo que de seu pai estava totalmente de acordo com aquilo, e que inclusive já enviara uma carta avisando-o de sua chegada à cidade. A esposa do médico, vendo quão pouca coisa trouxera a menina, a presenteou com algumas roupas e apetrechos femininos, e então partiram.

No navio, a rotina era basicamente acordar, vomitar, banhar-se, educar as crianças, comer, vomitar e dormir. Marília nunca tinha entrado num navio antes, e todo aquele movimento e toda aquela imensidão azul a deixavam enjoada constantemente. Foram três meses até que o périplo estivesse completo. Aportaram na Somália, onde Marília sentiu-se mais enjoada do que nunca. A esta altura, os Sirilo já a consideravam parte da família. Ela era de uma doçura incomparável, e sua educação era a de uma duquesa, sem contar a sua beleza exótica. Por tudo isso, e também pelos enjôos que não cessavam, Daniela achou que o melhor seria ter uma séria conversa com Marília para tentar entender como uma separação, do que ela julgava ser uma simples paixão juvenil, causara tanta dor à menina.

E então Marília não agüentou. Pôs-se a chorar e em meio a soluços, contou o que sentia. “Ah, o meu amor, por que tinha que ser tão irreverente? Tão questionador? Agora a estrela perde o seu brilho, perde a razão de brilhar. Não sou mais bela, pois não mais tenho o meu pastor. Será que ninguém compreende que um coração só é capaz de amar completamente um outro alguém uma vez na vida? E a minha vez passou, foi levada pelos tiranos deste mundo. Ah, se eu pudesse estar nos braços do meu poeta outra vez...” Entendendo que se passava, a sra. Sirilo deixou Marília em paz. Compreendeu que a bolsa azul era a prova de uma fuga, a fuga de uma vida de dor e abandono, e sabia também que o tempo era o único remédio eficiente para corações partidos. Não sabia, porém, se a dor causada pelo rompimento de um amor daquela magnitude, capaz de fazer o mais lindo semblante ficar cadavérico, poderia algum dia sarar.

Certo dia, durante o jantar, o Dr. Sirilo sentou-se a mesa entristecido. Era fácil entristecer-se por aquelas bandas, mas os seus suspiros demonstravam um tipo diferente de tristeza. Por não saber que o coração de Marília não tinha sarado ainda, e também por esquecer-se da razão do sofrimento da moça, o médico comentou sobre o que presenciara no hospital naquela manhã.

- Havia um homem ferido de guerra, sem lar e sem família, cuja a única tristeza era ausência de uma estrela no céu. Ele não ligava para a dor física, nem sequer gemeu quando lhe endireitei o braço torcido. Tudo o que balbuciava era “minha bela, minha estrela”. Estava demasiadamente exausto, mas antes de desmaiar em profundo sono, entregou-me este papel – e ajeitando os óculos no rosto, leu o papel - “Ah! minha Bela; se a Fortuna volta, se o bem, que já perdi, alcanço, e provo; por essas brancas mãos, por essas faces, te juro renascer um homem novo; romper a nuvem, que os meus olhos cerra, amar no Céu a Jove, e a ti na terra.”¹

Neste momento, Marília esqueceu de respirar. Se um ser humano poderia ficar mais alvo que a neve, então Marília assim ficou naquele momento. Entristecidos pela história do rapaz que Dr. Sirilo acabara de contar, o resto da família não percebeu o que acabara de acontecer com a moça. Aproveitando a desatenção, levantou-se sob o pretexto de que estava muito cansada e foi para o quarto, em busca da bolsa azul. A mesma bolsa que a acompanhara em sua fuga da melancolia, agora lhe seria amiga outra vez no seu encontro com a dor. Ela já sabia o caminho para o hospital, e também já era conhecida por lá como a afilhada do médico, e isso facilitaria a sua entrada fora do horário de visitas. Foi necessário esperar apenas 1h até que todos estivessem em seus aposentos, para que ela saísse sorrateiramente pela porta dos fundos.

Enquanto caminhava a passos largos e rápidos, pensava no que aquilo poderia significar. “Abandonei minha família e minha pátria para fugir de minha dor, e eis que aqui encontro ela, exatamente onde ela não deveria estar. E se for mesmo ele? E se ele já tiver me esquecido? E se ele tiver outra? E se ele estiver morto agora?” Toda a sua angústia e ansiedade serviram de acelerador para os pés da moça, que conseguiu chegar ao hospital em meia hora. E, correndo para a ala dos feridos de guerra, deparou-se com o seu passado, presente e futuro.

Lá estava ele, dormindo como um anjo, ressonando como se nada no mundo importasse mais. Marília aproximou-se suavemente, na dúvida entre acordá-lo e acabar logo com sua própria angústia ou deixá-lo descansar de sua vida de guerra. Mas foi necessário apenas o cheiro da doce Marília para que ele despertasse.

- Estrela minha? - Sussurou, abrindo os olhos lentamente e agarrando a mão da moça.

- Dirceu! - E então nenhuma outra palavra foi necessária. Os lábios de ambos se encontraram naquele exemplo perfeito de amor destruidor de barreiras, e suas mãos se entrelaçaram, como num pacto de sangue.

Naquele momento, tudo o que Marília conseguiu pensar foi “Ai, se não fosse aquela bolsa azul...”


¹Fragmento da Lira 15, da obra “Marília de Dirceu” de Tomaz Antônio Gonzaga.

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